Registros de roubos, estupros, estelionato e homicídios dolosos crescem na Barra e Recreio

Registros de roubos, estupros, estelionato e homicídios dolosos crescem na Barra e Recreio

O número cresceu de 2.907 casos em 2015 para 3.215 no ano passado, uma variação de 10,5%, segundo o Instituto de Segurança Pública

Registros de roubos, estupros, estelionato e homicídios dolosos crescem na Barra e Recreio

Viatura na Praia da Barra – Analice Paron / Agência O Globo

Os números divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), responsável pelas estatísticas de criminalidade no estado, confirmam o que já era uma sensação dos moradores da Barra e do Recreio: a quantidade de roubos aumentou na área patrulhada pelo 31º BPM (Recreio). O número cresceu de 2.907 casos em 2015 para 3.215 no ano passado, uma variação de 10,5%, registrada num período em que a região teve a segurança reforçada por homens de outros batalhões e da Força Nacional para a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

Os dados revelam o recrudescimento de diferentes tipos de roubo no período: a transeuntes, que passaram de 1.163 para 1.337 (aumento de 15%); em coletivos, que foram de 200 para 281 (40,5%); e de celulares, que aumentaram de 267 para 291 (9%). Os assaltos a estabelecimentos comerciais também ficaram mais frequentes: passaram de 106 para 125 (18%), assim como os estelionatos, que tiveram 2.182 registros, um crescimento de 26%. Se a rua está perigosa, ficar em casa também não é garantia de tranquilidade. Pelo segundo ano consecutivo, aumentou a quantidade de roubo a residências. Em 2015, foram 28. No ano passado, o número de registros passou para 52, mais do que o dobro dos 25 ocorridos em 2014.

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Mas não são apenas os crimes contra o patrimônio que têm tirado o sono dos moradores. Depois de dois anos consecutivos em queda, a quantidade de estupros voltou a aumentar: passou de 74 para 92, o maior número já registrado desde 2013, primeiro ano completo de operação da segunda delegacia da área, a 42ª DP (Recreio). Comandante do 31º BPM, que conta com um efetivo de 580 policiais, o tenente-coronel Sérgio Schalioni entende que o crescimento da criminalidade é reflexo dos problemas enfrentados pelo governo do estado e também da melhora na mobilidade, resultado da inauguração das vias expressas Transcarioca e Transolímpica, que fizeram aumentar a circulação de pessoas na região.

— O avanço da mobilidade também traz problemas. Antes, tínhamos um padrão distinto: um número maior de roubos de veículos no Recreio e de rua na Barra. Hoje, o padrão foi igualado. A inauguração da Transolímpica teve impacto especialmente no Recreio, que era uma área menos acessível do que a Barra — afirma o oficial.

O pequeno efetivo é apontado pelos moradores como uma das razões do elevado índice de roubos. A família do médico Mário Sérgio Morales, morador do Jardim Oceânico, entrou para as estatísticas de assalto no ano passado. Ao descer do prédio, o filho dele foi roubado por um homem que se aproximou, de moto, e levou seu celular.

— A polícia não tem efetivo suficiente no 31º BPM. É muito raro vermos patrulhamento pelas ruas. Meu filho foi roubado na porta de casa, mas testemunhei muitas situações semelhantes no ano passado — afirma Morales.

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A criminalidade tem feito os moradores mudarem de hábitos. O advogado Rui Aguiar, que vive no Recreio, já evita frequentar um dos pontos mais badalados da Barra: o Jardim Oceânico.

— Mesmo às sextas-feiras, o dia de maior movimento, 1h é o limite para ir embora. Caso contrário, só dá para sair entre 5h e 6h por causa do grande número de roubos nas ruas. Nós já nos reunimos com o comandante e pedimos que seja implantado aqui a operação Barra Presente — lembra o advogado.

Desde 14 de janeiro, a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop), em atuação conjunta com a Polícia Militar, realiza, em toda a orla e nos principais corredores de acesso a ela, o Plano de Prevenção contra Pequenos Delitos e Arrastões. Na Barra e no Recreio, a força municipal conta com agentes que usam a mesma frequência de rádio que os policiais, o que facilita a comunicação de crimes e inibe a ação dos bandidos. No entanto, a operação tem prazo de validade: vai até o fim do verão.

Sociedade Civil se mobiliza

Antropóloga e professora da graduação em Segurança Pública da UFF, Jacqueline Muniz refuta a tese defendida pelo tenente-coronel Sérgio Schalioni de que a melhora na mobilidade urbana possa ter contribuído para o aumento da criminalidade na região ao longo de 2016. Para ela, fatores como o não pagamento das gratificações, atrasos salariais e batalhões operando no limite da capacidade explicam o aumento da criminalidade em todo o estado.

— A polícia foi criada no século XIX, entre outras razões, para garantir a mobilidade, o direito de ir e vir, já que a cidade é aberta, não tem muros. Mobilidade urbana garante que as pessoas não fiquem expostas por horas no ponto, à espera de transporte, e não sejam, assim, vítimas de assaltos. Uma resposta concreta para o problema da área só poderá ser obtida se o comandante abrir o plano de policiamento, um documento que sempre é apresentado ao comando maior da polícia. Isso precisa ser modificado a cada alteração local. Um dia de sol ou de chuva, por exemplo, muda a rotina de policiamento em um local litorâneo — afirma Jacqueline.

Especialista em segurança pública e morador da Barra, Paulo Storani, por sua vez, concorda com a análise do comandante Schalioni sobre as conjunturas nacional e estadual, mas critica as ações e as escolhas políticas feitas pelo governo do estado para o setor.

— O momento do país é delicado. Há uma crise de autoridade, com diversos políticos citados em escândalos de corrupção, e isso desestrutura a sociedade. No Rio, a política de UPPs absorveu boa parte dos policiais que seriam enviados para os batalhões, o que fez com que os efetivos ficassem defasados. Com isso, batalhões como o 31º BPM não puderam dar prioridade ao patrulhamento, fundamental na prevenção, e não houve investimento em tecnologia para compensar isso neste momento de aumento de frequência (de delitos). Onde há mais gente, há mais oportunidade para os criminosos — avalia Storani.

foto 2 materia 1Se a crise financeira tem engessado as ações do estado, a sociedade civil vem se organizando para tentar reduzir os índices de criminalidade. Associações empresariais e de moradores da Barra da Tijuca fundaram no ano passado a Associação Comunitária Barra Segura (ACBS). Desde novembro, a nova entidade conta com uma central de monitoramento, com acesso às 104 câmeras da prefeitura espalhadas pela cidade e outras de condomínios e empresas, todas voltadas para a rua. Coordenador do projeto, integralmente custeado pela iniciativa privada, Rodrigo Taveira explica que a iniciativa ainda está no início, em busca de adesão da vizinhança.

— As imagens são feitas por uma câmera com acesso à internet, que as transmitem por meio de um canal exclusivo. Para os leigos, eu digo que é como assistir ao Netflix: você entra em um site, faz login e acessa. E quem entra no projeto abre suas câmeras e tem acesso às demais. Estamos perto de poder ler as imagens de 30 condomínios. Nós trabalhamos também com relatos de moradores e clipping de imprensa. Dessa forma, conseguimos geolocalizar os crimes e fazer um acompanhamento dos movimentos das manchas, sejam ela criminais ou de ordem pública — explica Taveira.

Presidente do Conselho Comunitário de Segurança do 31º BPM, o engenheiro Ricardo Magalhães afirma que o órgão tem se concentrado nos problemas registrados no Jardim Oceânico, onde entende que há uma explosão de violência, estimulada pela desordem. Em janeiro, uma operação da Superintendência de Administração Regional da Barra da Tijuca, realizada com o apoio de outros órgãos municipais, fechou quatro estabelecimentos comerciais da área por falta de alvará.

— Há muito movimento no Jardim Oceânico, e isso precisa ser ordenado. O tumulto cria oportunidade para os criminosos. O comandante do 31º BPM tem reconhecido a dificuldade de atuar, seja por falta de pessoal, seja pelos problemas enfrentados pelo governo do estado, mas não tem nos deixado na mão — avalia.

O Globo