Dezenas de obras da Zona Oeste foram paralisadas na transição da prefeitura

Projetos foram licitados, mas pararam; maior parte dos casos ocorreu entre Clínicas da Família

Dezenas de obras da Zona Oeste foram paralisadas na transição da prefeitura

Ciclovia que ligaria a Praia do Recreio às Vargens parou no meio do caminho – Barbara Lopes / Agência O Globo

Nos últimos meses da administração do prefeito Eduardo Paes, uma série de obras foi paralisada ou teve seu andamento desacelerado na cidade. A situação ficou ainda mais complexa após a posse do novo gestor municipal, Marcelo Crivella, que determinou a revisão de todos os contratos em andamento. Como resultado, há dezenas de projetos em compasso de espera, segundo os cálculos da própria prefeitura, como afirmou o superintendente da Barra, Thiago Barcellos, numa reunião do Conselho Comunitário de Segurança da Barra realizada em fevereiro.

Na região, os exemplos são muitos, espalhados por bairros como Itanhangá, Barra, Recreio e Jacarepaguá. Há projetos cujas licitações foram feitas mas as construções não chegaram a ser iniciadas; há outros parados ou, ao que tudo indica, até mesmo abandonados. As Clínicas da Família, uma das meninas dos olhos do governo anterior na área de saúde, estão entre as mais sacrificadas. Em novembro de 2015, na última fase de expansão, a Secretaria municipal de Saúde anunciou que seriam construídas 50 unidades, custeadas por uma verba de R$ 100 milhões liberada pela Câmara Municipal. Destas, 14 seriam feitas na região entre Barra e Jacarepaguá, mas, segundo balanço dos atuais responsáveis pela pasta, feito a pedido do GLOBO-Barra, apenas quatro foram inauguradas: a Helena Besserman Vianna, em Rio das Pedras; a Barbara Mosley de Souza, no Anil; a Maicon Siqueira, no Camorim; e a Gerson Bergher, na Praça Seca. As unidades paradas ficam na Muzema, no Recreio, na Taquara, na Colônia Juliano Moreira, na Cidade de Deus, na Praça Seca e em Curicica.

A clínica do Recreio, que atenderia principalmente ao Terreirão, começou a ser erguida na Avenida das Américas, logo após o Recreio Shopping. No último mês de dezembro, a antiga gestão da prefeitura informou que a obra tinha sido licitada e estava em fase de terraplanagem e fundação. Atualmente, seu futuro é duvidoso: o canteiro está abandonado. Enquanto isso, o posto de saúde Harvey Ribeiro de Souza Filho, também no bairro, vem acumulando serviços que deveriam ser realizados por uma Clínica da Família, como atendimento preventivo.

A situação é frustrante para moradores como Valéria Cruz, que em 2015 liderou um abaixo-assinado pela construção de uma UPA no Recreio, já que a unidade de saúde emergencial mais próxima do bairro é o Hospital Lourenço Jorge:

— Naquele ano, o secretário de Saúde nos disse que não seria possível fazer a UPA, por causa do alto custo, mas prometeu uma Clínica da Família. No final de 2015 a obra foi lançada, com a presença de diversos políticos e moradores. Todos estavam felizes. Mas nunca mais tivemos notícias do projeto, que ficou abandonado.

Outra clínica inacabada é a da Praça Valdir Vieira, na Taquara, uma obra recheada de polêmica desde o seu anúncio. Em 2015, quando o projeto foi divulgado, moradores reclamaram, porque a estrutura ficaria no meio da área de lazer, e iniciaram um abaixo-assinado pedindo seu reposicionamento. Pouco tempo depois, os tapumes mudaram de lugar, e parecia que o pleito seria atendido. Mas até hoje nada mais foi feito.

— Pelo que fiquei sabendo, não vai mais ter clínica. Era uma promessa do Chiquinho Brazão para voltar à Câmara dos Vereadores; depois que ele foi reeleito, não fizeram mais nada. Realmente precisamos de uma clínica; a que frequentamos fica na Praça Seca — queixa-se Roberto Antunes.

No início de fevereiro de 2016, uma cerimônia que teve a presença de secretários, vereadores da então base aliada e do próprio Eduardo Paes anunciou a construção de uma outra Clínica da Família, esta na comunidade da Muzema, no Itanhangá. Moradores se lembram da festa promovida naquele dia, com direito a distribuição de doces para crianças. Mais de um ano depois, porém, o cenário é praticamente o mesmo. O terreno na Avenida Engenheiro Souza Filho onde ficaria a estrutura continua cercado por tapumes. Do lado de dentro, veem-se vigas abandonadas e uma pequena área concretada, além de uma estrutura metálica que serviria para o elevador.

— O Paes tinha garantido que a clínica ficaria pronta em setembro do ano passado — diz Roberval Uzeda, diretor de patrimônio da Associação de Moradores da Muzema.

Promessas não cumpridas não são novidade na comunidade. Há tempos, o principal problema do local é a falta de saneamento básico, e a solução parecia estar no projeto Bairro Maravilha, outra promessa da prefeitura. Mas apenas algumas pavimentações foram feitas, e as obras estão paralisadas. Segundo Uzeda, o trabalho foi iniciado em fevereiro de 2015 e interrompido em meados do ano passado. Enquanto isso, uma caminhada pelas ruas do local é acompanhada pelo cheiro do esgoto a céu aberto. Numa das ruas, quem sai de casa passa por uma pequena ponte construída pelos próprios moradores para alcançar a calçada.

— Hoje, 140 mil famílias vivem na Muzema, e todo o esgoto é despejado em valões ou na própria rua — explica Uzeda, que também lamenta o crescimento desordenado de prédios. — Moro aqui há 30 anos, e não para de subir casa.

Antigas promessas sem solução

Os moradores da Vila do Pan também precisam lidar com um longo histórico de promessas. Este ano, completam-se dez anos da inauguração do condomínio, que tem os mesmos graves problemas estruturais desde o início. São 17 prédios erguidos em um terreno pantanoso, que requer obras de estabilização e urbanização. No ano passado, o final feliz parecia que viria, mas ficou só no papel. Desde então, um canteiro de obras toma grande parte do terreno, mas moradores contam que o trabalho parou nos últimos meses. Aloísio Bravo, diretor da associação de moradores do residencial, explica que as obras foram totalmente paralisadas em dezembro, e a situação só vem se agravando:

— Hoje está pior do que antes das obras, porque o canteiro ainda está aqui, atrapalhando todo mundo, e não tem mais ninguém trabalhando. Todos os funcionários (da empresa responsável pela obra) foram embora, e as máquinas sumiram.

Em julho passado, a obra já chegara a ser paralisada devido à discussão sobre a assinatura de um aditivo de R$ 15 milhões para sua conclusão. Bravo diz que, em uma reunião, o então secretário de Obras prometeu a liberação do dinheiro e garantiu que todo o trabalho seria concluído ainda em 2016.

— Não liberaram o aditivo e nem todo o orçamento original da obra, do qual ainda falta cerca de R$ 1 milhão dos R$ 63 milhões da verba total. O que acabou foi o dinheiro, não a obra. Enquanto isso, não temos mais notícias, ninguém fala conosco. O Índio da Costa (novo secretário de Obras) diz que vai marcar uma reunião, mas, até agora, nada — lamenta Bravo, que destaca a desvalorização recente dos imóveis. — Tem muita gente saindo do condomínio, e também gente nova entrando por conseguir alugar ou comprar imóveis por preços baixos, já que ninguém consegue fazer negócio pedindo os valores reais dos imóveis.

No Recreio, uma obra parou literalmente no meio do caminho: a da ciclovia que ligaria a Praia do Recreio às Vargens, uma reivindicação antiga dos moradores, devido ao alto índice de atropelamentos na Estrada do Rio Morto. Dos quatro quilômetros previstos para a malha cicloviária, aproximadamente a metade foi concluída, justamente no trecho menos problemático para os ciclistas: o ponto no qual a via foi duplicada, até a praia. Ao chegar ao início da Estrada do Rio Morto, a obra foi paralisada.

Desde o seu anúncio, o projeto teve o cronograma alterado diversas vezes, e a pressão popular foi sempre a arma para a sua continuidade.

— Temos que ficar em cima, se não, ninguém faz nada — afirma Rogério Appelt, idealizador da ciclovia e responsável pela realização de duas passeatas que deram visibilidade à reivindicação antes de o projeto ser confirmado pela prefeitura.

Outro ponto sensível do Recreio é o Canal das Taxas. Em meio à poluição que afeta a fauna local e a rotina dos moradores há décadas, um problema parece menor, ao menos para o poder público. A construção de uma nova ponte, na altura da Rua Clóvis Salgado, foi licitada no ano passado, mas nunca inicada.

Desde abril de 2016, o que restou da antiga passarela, de 15 metros de extensão, está interditado, devido ao risco de queda. Com isso, os moradores da área do Canal das Taxas e os banhistas que lotam as praias no verão precisam fazer um caminho mais longo para chegar à praia: pegam um desvio de cerca de um quilômetro pelas ruas Clóvis Salgado e Gláucio Gill para atingir a orla. Vencedora da licitação realizada em setembro passado para a construção desta passarela e de outra em frente à Rua Raul Amaro Nim Ferreira, orçadas conjuntamente em R$ 1,2 milhão, a CD Empreendimentos afirma aguardar o empenho dos recursos para iniciar o serviço.

Procurada, a prefeitura disse que todas as obras mencionadas na reportagem foram interrompidas pelo então prefeito Eduardo Paes e que a atual gestão está fazendo uma auditoria de todos os contratos. Em relação à Muzema, estão previstas mais 12 etapas do Bairro Maravilha, com duração de um ano.

Para a Vila do Pan, a GEO-Rio está preparando um novo plano de recuperação, com estudo do solo e de orçamento. Já a conclusão da ciclovia ligando Recreio e Vargens é prioridade, segundo a Secretaria de Transportes, e também está sendo avaliada. Nenhum projeto tem cronograma ou prazo definidos.

 

Fonte: O Globo