Capivaras e jacarés sofrem com ação de caçadores nas lagoas da Barra

Ambientalistas tentam combater o crime, que não é devidamente fiscalizado

Jacaré na Lagoa da Tijuca, em trecho conhecido como praia dos jacarés - Analice Paron -Analice Paron

Jacaré na Lagoa da Tijuca, em trecho conhecido como praia dos jacarés – Analice Paron / Analice Paron

Já castigada pela poluição do seu habitat, a fauna do complexo lagunar da Barra sofre com outro grave problema: a caça. Os alvos principais são as capivaras e os jacarés, cujas carnes são valorizadas e vendidas ou consumidas pelos criminosos. A situação, dizem os ambientalistas, é conhecida por qualquer pessoa que frequente ou tenha algum conhecimento sobre a área.

A luta do biólogo Marcello Mello contra a caça de animais silvestres já dura mais de uma década. Morador da Ilha Primeira há 15 anos, ele diz que o primeiro problema que notou ao chegar na região foi a matança de pássaros como coleiros, trinca-ferros e sanhaços. Toda semana, Mello resgata animais doentes, devido à poluição, ou machucados, consequência da ação de caçadores. Já bastante conhecido por moradores da região, ele é sempre acionado para resolver problemas dessa natureza.

— Em média, duas vezes por semana resgato animais de vários tipos — afirma o biólogo, que já denunciou o problema diversas vezes. — Todos os barqueiros conhecem a situação. Para mim é muito difícil fiscalizar sem um distintivo. Já encontrei caçador atuando e fui ameaçado.

A fiscalização escassa é a principal dificuldade no combate à caça, diz Mello. Outro problema, segundo o biólogo, é a falta de educação ambiental.

— Eu costumava ir aos conselhos de segurança, e sempre dizia que ninguém se preocupava com esse tipo de crime. A Polícia Ambiental tem um contingente pequeno e age mais nas florestas, nas unidades de conservação. O governo também não se preocupa em fazer um trabalho de educação ambiental com a população que vive no entorno das lagoas, o que é muito necessário.
Marcello Mello diz que há três tipos de caça: a primeira seria a “farra da cachaça”, em que as pessoas comem a carne dos animais mortos às margens das lagoas, logo após matá-los; a caça para venda da carne; e a “caça da maldade”, feita em menor escala, em que se atira em capivaras e jacarés por mera diversão. Na maioria dos casos, diz ele, os caçadores são moradores de comunidades próximas às lagoas:

— Normalmente são pessoas vindas do interior e acostumadas a capturar animais. Os caçadores agem no fim da tarde, quando as capivaras aparecem, e usam armadilhas, facões, cordas ou armas de fogo.

O biólogo Ricardo Freitas, que pesquisa os jacarés nas lagoas da região, também lamenta a situação. Ele diz que em torno das lagoas é fácil mapear pontos de descarte de carcaças e vísceras:

— Esse circuito é muito conhecido. Já levei a Patrulha Ambiental (formada por técnicos do Inea) a locais onde os caçadores limpam a carne, mas eles não tinham poder de polícia. Em alguns pontos há até panelas e churrasqueiras escondidas. Na Lagoa de Marapendi são vários. Na Lagoa de Jacarepaguá, atrás do aeroporto, há um também. Os caçadores já deixam os carros em acessos que não são usados por pescadores.

Polícia diz desconhecer problema

O biólogo Ricardo Freitas diz que já passou por momentos de tensão: certa vez, deparou com um caçador em ação e correu o risco de ser alvejado por tiros disparados contra os animais que ele perseguia. Assim como o colega Marcelo de Mello, ele reclama da falta de fiscalização.

— A Polícia Ambiental só trabalha em horário comercial, e a caça ocorre mais à noite. Na prática, a fiscalização ambiental não funciona. Eles têm treinamento militar para atuar, mas não em crimes ambientais. Acho que falta eles buscarem informações com quem conhece a região. É mais uma mancha no legado ambiental que muitos imaginariam que viria com a Olimpíada, como foi prometido.

Há duas semanas, o biólogo Mario Moscatelli postou a foto de uma carcaça de capivara que viu boiando na Lagoa da Tijuca. Ele diz que geralmente encontra animais mortos nas áreas de mangue e de brejo onde sua equipe faz trabalhos, principalmente nas lagoas do Camorim e da Tijuca, nos locais conhecidos como Saco Grande e Saquinho.

— Os animais já são sobreviventes do holocausto ambiental que ocorre no sistema lagunar. Para piorar, infelizmente não há fiscalização sistemática; cada um faz o que quer — reclama

Apesar dos relatos, a Polícia Ambiental diz desconhecer o problema. Durante o período da Olimpíada e da Paralimpíada, o órgão reforçou a vigilância na região, e havia rondas diárias nas lagoas, em especial na de Jacarepaguá. Segundo o coronel André Vidal, comandante do batalhão, porém, não houve qualquer ocorrência ambiental nesse período.

— Ficamos quase dois meses nas lagoas e não vimos nada. Normalmente nós apreendemos armas de caça e armadilhas em outros municípios do estado. Ano passado, foram quase 400 armas. Mas nas lagoas da Barra nunca vimos caça — afirma Vidal, dizendo-se à disposição dos ambientalistas. — Se houver denúncia, vamos pessoalmente aos locais.

Já a Secretaria estadual do Ambiente, responsável pela Patrulha Ambiental, afirmou ao GLOBO que realiza operações esporádicas nas lagoas em parceria com a Polícia Ambiental.

Para Marcelo Mello, o desconhecimento dos agentes públicos reflete o descaso com a situação das lagoas:

— Falta investimento em pesquisa. Catalogar a fauna das lagoas, por exemplo. Não existe preocupação em identificar e estudar a vida silvestre daqui. Os animais estão entregues à própria sorte. Nós só contamos com trabalhos independentes, feitos por ambientalistas.
Fonte: O Globo