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Assustados com crimes no BRT, moradores pedem aumento na segurança

Uma das sugestões é que policiais trabalhem sem uniforme nas estações de maior risco

 

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Inseguro. O estudante Bernardo Saporito foi assaltado dentro da estação Afrânio Costa, na Barra, e agora não pretende mais andar sozinho – Agência O Globo / Mônica Imbuzeiro

Junto com as milhares de pessoas que entram nas estações de BRT das vias expressas Transoeste, Transcarioca e Transolímpica, diariamente embarca o medo. Nas três, passageiros sempre reclamaram de vandalismo e furtos, dentro e no entorno das estações. Agora, muitos vêm reclamando também de assaltos, inclusive à mão armada.

A vendedora Lúcia Helena escuta, e vivencia, estas reclamações todos os dias. Ela mora em Campo Grande e sai de casa por volta das 3h40m, de BRT, em direção à estação Gláucio Gil, no Recreio. Ela chega às 4h e já monta sua barraca para vender café da manhã aos usuários do transporte. Ela diz que já viu de tudo nos últimos cinco anos, entre a hora que chega, ainda no escuro, e as 9h30m, quando o sol já está a pino. Entre suas amigas mais próximas, calcula rapidamente, pelo menos sete já foram assaltadas nas estações ou no entorno delas.

— O BRT melhorou a mobilidade, mas em compensação o número de assaltos aumentou muito, principalmente com arma branca, porque faca não faz barulho e intimida todo mundo. Quem não tem medo de uma faca? — indaga.

Numa madrugada, conta, ela e seus clientes conseguiram evitar um estupro, perto do Américas Shopping.

— Eu estava servindo dois clientes quando vimos uma moça assustada, fugindo de dois homens. Meus clientes pegaram a minha faca de passar manteiga no pão, que é grande, e saíram correndo em direção à moça. Se não fosse pela ação deles, ela teria sido estuprada — relata.

O estudante Bernardo Saporito não teve a sorte de contar com algum passante para ajudá-lo. Ele saiu do IBMR, na Avenida das Américas, onde cursa Design de Games, atravessou a rua e foi abordado e assaltado assim que entrou na estação Afrânio Costa do BRT. O ladrão aproveitou que a estação estava quase vazia e sem segurança para levar seu dinheiro e o telefone celular.

— Eu saí da faculdade, perto do meio-dia e, como estava com pressa nesse dia, fui sozinho para a estação. Um cara, que parecia uma pessoa comum, me chamou, mas não dei atenção. Até que ele chegou do meu lado e começou a me ameaçar, dizendo que eu estava maluco por ignorá-lo e que ia dar um tiro na minha cara. Não vi a arma dele, mas não quis me arriscar e entreguei o celular e o dinheiro. Quando terminou o assalto, ele mandou eu entrar num ônibus, que estava chegando naquele momento, e ir embora — explica.

As cenas de violência registradas na Barra e no Recreio se repetem em Jacarepaguá. Há cerca de um mês, o estudante Lucas Malafaia foi uma das vítimas da insegurança do BRT. Pouco antes de chegar à estação Tanque do BRT Transcarioca, foi assaltado por um bandido armado, dentro do ônibus.

— Um homem se sentou do meu lado e apontou a arma. Eu dei minha carteira e ele saltou na estação seguinte — afirma Malafaia, que reclama do estado das estações do corredor Transcarioca. — Estão quase sem iluminação e com muitas portas quebradas, resultado de invasões. Quando há seguranças, eles ficam mexendo no celular ou dentro da cabine, e nada fazem.

O estudante também passou por um momento tenso duas semanas atrás, na estação Merck. Ele estava acompanhado de um amigo e encontrou 15 adolescentes fazendo baderna no local. Com medo, saltou do ônibus na estação seguinte. Malafaia utiliza o BRT Transoeste diariamente e o Transcarioca, duas vezes ou três vezes por semana. O segundo corredor, diz, é mais perigoso, por ficar mais vazio à noite, e quase sempre escuro.

— Desde que o BRT foi inaugurado, a situação só piora. O Transoeste ao menos fica lotado a qualquer hora do dia, o que dá maior sensação de segurança — afirma Malafaia. — Durante a Olimpíada ainda havia mais segurança. Depois, todo aquele aparato se foi. Parecia que estava tudo ótimo, mas na verdade não estava.

Apesar da impressão do estudante, Lúcia Helena diz que nem o grande movimento garante vigilância adequada e segurança para os passageiros.

— Depois das 17h, quando as pessoas começam a voltar para casa, o movimento aumenta muito e o BRT diminui o número de ônibus, a situação fica pior. Os pivetes ficam rodando por aqui só esperando o empurra-empurra que as pessoas fazem para entrar nos ônibus e começam a furtar, já que ninguém consegue sentir que está sendo roubado. As mulheres só andam abraçadas com as bolsas, e algumas até levam o celular dentro do short — relata.

PARA EVITAR QUE HAJA MAIS VÍTIMAS

Mesmo quem não foi vítima de assaltos está se mobilizando pela segurança. Cansado de ver ocorrências durante a semana e vandalismo nas estações durante o final de semana, Carlos Alexandre Borges dos Santos, morador do Recreio, enviou uma correspondência ao comando do 31º Batalhão de Polícia Militar (Recreio) sugerindo que fossem destacados policiais não uniformizados para trabalhar nas estações Gláucio Gil, Gilka Machado e Guiomar Novaes, que dão acesso à praia e são as mais movimentadas.

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Arriscada. Estação Gláucio Gil, no Recreio, é uma das mais movimentadas e visadas pelos ladrões e vândalos – Agência O Globo / Mônica Imbuzeiro

— Passei pelas estações de Santa Cruz, onde há muito vandalismo, e vi que havia uns seguranças que pareciam ser policiais à paisana. Teve uma situação na qual eles se apresentaram, mostraram uma carteira e resolveram o problema pacificamente. Acredito que sejam policiais e gostaria que a medida fosse estendida para nós aqui no Recreio e na Barra — pleiteia.

A empresária Sabrina Bina também deseja contribuir para ajudar a melhorar a situração. Há cerca de duas semanas ela lançou a campanha virtual #sosrecreio, no Facebook, para reunir relatos de violência principalmente nas estações de BRT.

— A ideia veio num dia em que eu passei por uma estação e vi uma confusão muito grande. Muita gente correndo, dando calote, batendo no ônibus, causando tumulto. Fiquei com medo e fui embora. Ao chegar em casa, soube que tinha havido um arrastão na estação do Recreio Shopping. Lancei então a hashtag sosrecreio, que teve adesão instantânea, com muita gente relatando casos pessoais — explica.

Para a empresária e moradora do Recreio, uma das soluções para o BRT seria a segurança privada.

— O 31º BPM tem que cuidar de uma área muito grande, e eles têm poucos recursos; o estado está falido. Precisamos de mais ajuda. Quando a Transolímpica for totalmente aberta, o Recreio vai virar terra de ninguém. Não aconteceu nada comigo ainda, mas não quero que aconteça, e vejo que muitas pessoas estão sofrendo com a situação — pondera.

A Polícia costuma reforçar a necessidade de as vítimas de crimes irem à delegacia mais próxima para fazer o boletim de ocorrência. Mas, descrente, o estudante Bernardo Saporito diz que não fez registro da violência que sofreu. Acrescenta que a solução para ele vai ser não andar mais sozinho, para não facilitar a ação dos bandidos.

Já a vendedora Lúcia Helena acredita que só a presença policial pode resolver os problemas no BRT:

— É difícil ver patrulha passando por aqui. Se houver mais policiamento, certamente a violência vai diminuir.

Por e-mail, o consórcio BRT Rio informa que tem um convênio com o Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis), que permite a contratação de policiais fora do horário de serviço. São estes policiais que trabalham à paisana dentro e fora das estações e também dentro dos ônibus do BRT, explica o consórcio, sem revelar quantos agentes são. O local de atuação do contingente é definido de acordo com a necessidade. Além do Proeis, a segurança é feita por controladores de estação e câmeras que enviam imagens para um centro de controle.

Segundo o consórcio, na última segunda-feira, uma ação conjunta resultou na prisão de um homem acusado de praticar assaltos no trecho entre o Recreio e o Jardim Oceânico. O bandido foi reconhecido por oito vítimas, que fizeram registros na 16ª DP (Barra) e na 42 ª DP (Recreio).

A PM diz que não recebeu o pedido enviado por Carlos Alexandre Borges dos Santos. Confirma o acordo com o Proeis, mas afirma que os militares trabalham fardados. E acrescenta que realiza policiamento ostensivo nas linhas do BRT.

Fonte: O Globo